domingo, 2 de março de 2025

 Onde não puderes amar, não te demores.



Sentada num dos meus sítios preferidos do mundo, em plena conexão com o mar, e com a natureza, paro, respiro e sinto.

Estou despojada de tudo. O cheiro a maresia e uma brisa leve que me beija o rosto, adivinham os dias de primavera que estão para vir. O som que me acompanha não é nada se não o das ondas a bater no mar. Deixo os air pods no carro, e fico-me comigo.

Nesta língua de terra que o homem tenta controlar e demonstrar a sua força, a natureza demonstra a sua tenacidade, e é a prova de que nada nem ninguém consegue sobrepor-se à sua força, e àquilo que tem de ser. Assim é aqui, em Ofir, assim é a vida. Na prática, podemos fingir, podemos mascarar o que temos, o que sentimos, o que queremos, mas um dia, um dia qualquer, vem um tsunami que… leva tudo… puxa tudo para trás, deixando à superfície uma linda realidade de conchas, estrelas do mar, rochedos por descobrir, leves ondas de areia cavadas pela força da água, e até nos damos a contemplar coisas nunca antes vistas. E, de um momento para o outro, a mesma onda que deixou a descoberto coisas que tiveram um belo impacto em nós, vem com mais força para destruir tudo. E nós, queixamo-nos…

Nada, nem ninguém consegue forçar o que não é para ser. Porque a realidade, essa, surge sempre. Seja em pensamentos, em estranhos acasos ou coincidências, e a vida, encarrega-se sempre de colocar tudo no lugar certo, mesmo que em determinados momentos nos questionemos sobre o seu porquê.

No dia em que percebermos que a tónica está na pergunta que fazemos, talvez deixemos os porquês da vida, e passamos a mudar o foco para “o que é que eu posso fazer com isto?”. E assim que deixamos de questionar as inevitabilidades da vida, assumimos as diretrizes da nossa história, sendo os autores, e não as vítimas das circunstâncias (que somos nós mesmos que as criamos), dos momentos (que somos sós mesmos que os escolhemos), ou das justificações (que somos nós mesmos que as damos para o que não queremos que aconteça).

Assim é a vida, são a maior parte das pessoas, e das relações.

Quem me conhece sabe que sou na minha essência uma pessoa positiva, com uma energia forte, intensa, e que levo tudo à minha frente quando acredito. Detesto perdas de tempo. Não tenho paciência para pessoas que engoliram livros de auto-ajuda e passam a vida a dar aos outros pérolas de conhecimento, que ouviram ou leram algures, e no momento de estarem calados, porque não somos ninguém para julgar os outros, nem tecer comentários sobre vidas que desconhecemos na verdade os contornos. Sim, nós somos nós e as nossas circunstâncias, e quem viver de achismos, vai ter sempre alguma coisa a dizer.

Detesto julgamentos e aqueles que acham que têm sempre uma palavra a dizer.

E no mesmo local onde faço a reflexão acima, olho para o necessaire que uma das minhas pessoas favoritas me ofereceu (há cerca de 2 anos talvez? ) e dou por mim a olhar para a frase que está nele escrito: “Donde no puedes amar no te demores”.

Não, não foi acaso este presente, e talvez não seja acaso esta contemplação.

Sabes, há uma coisa que me custa entender: essa mania que tanta gente tem de ficar onde já não há nada. De segurar relações por conveniência, por medo do vazio ou só porque é mais fácil ficar do que ter a coragem de ir embora. Ficam ali, agarrados a uma rotina confortável, a um amor morno, sem sabor, sem pele, sem alma.
E pior ainda — ficam à espera de milagres. Como se um dia, do nada, fosse aparecer a faísca que apagaram há muito tempo atrás. Ficam à espera que o outro mude, que a história se reinvente, que a paixão renasça. Mas os milagres não acontecem onde já desistimos de acreditar.

Que estranha obsessão social esta em manter as aparências. Relacionamentos que já não são nada além de uma rotina confortável, cascas vazias onde o amor morreu há tanto tempo que já ninguém se lembra do sabor da paixão ou do calor de um abraço sincero.

Ainda assim, as pessoas teimam em ficar. Por conveniência, por medo da solidão, por receio do desconhecido. É mais fácil dividir uma casa com alguém que já se conhece do que aprender a construir um novo lar com quem ainda não chegou. É mais fácil deitar-se ao lado de quem já não desperta desejo do que enfrentar o silêncio de uma cama vazia. É mais fácil aceitar um amor morno do que arriscar perder tudo e acabar sem nada.

O medo vence.

Medo do que não chegou ainda. Dos passos que tem que se dar sozinhos. Das pessoas que tem de ficar para trás, inevitavelmente. Esquecendo-se que nunca há lugar para o novo, quando o velho ocupa todos os lugares do que está por vir.

E assim, permanecem. Prisioneiros de vidas mornas, de dias sem cor e noites sem alma. Ficam à espera de milagres que nunca acontecem, à espera que o outro mude, que o amor renasça, que a faísca perdida volte como quem acende uma vela num quarto escuro. Mas os milagres não acontecem em terrenos onde a alma já desistiu.

Onde não puderes amar, não te demores. 

Não te demores em casas onde a tua gargalhada é ruído. Não te demores em camas onde o teu corpo é peso morto. Não te demores em mesas onde já nem há palavras. Não te demores em braços que não te apertam e em olhares que não te procuram.  Não te demores em pessoas que não são colos, nem em sorrisos que não te iluminam. E, acima de tudo, não te demores em lugares onde só existem expectativas vãs e vazias. Onde o amor é prometido, mas nunca cumprido. Onde te dão metade, e até esperam que fiques grato. Onde te fazem acreditar que talvez, um dia, serás escolhida — mas esse dia nunca chegou, nem vai chegar.

Não fomos feitos para viver de migalhas, nem de amores adiados ou promessas por cumprir. Não somos metades à espera de completude. Somos pessoas inteiras, à espera de quem nos acrescente.

Porque a vida é demasiado curta para se gastar em becos sem saída. Porque mereces um amor que te arda na pele e não um que te apague aos poucos. Porque mereces alguém que escolha ficar todos os dias, não por comodismo, mas por desejo, por admiração, por amor genuíno.

E sim, devemos ter a coragem de partir. De esquecer quem não nos escolhe. De abandonar quem nos deixa sempre para depois. Porque merecemos mais do que o quase, o talvez ou o “quem sabe um dia”.

Onde não puderes amar e ser amado, não te demores — porque demorar-te é trair-te. E a pior traição é aquela que cometes contra ti mesmo.

Viremos a mesa ao contrário. Sejamos capazes de nos afirmar, de não aceitar menos do que merecemos!

Sim, porque quem quer, arranja motivos. Quem não quer, arranja desculpas. 

Por isso, sim. Tem a coragem de partir. De esquecer quem não te escolhe todos os dias. Quem só sabe dizer “agora não”, “um dia talvez”, “preciso de tempo”.
E nós? Nós não temos tempo para desculpas. Nem para amores a meio gás.

Chega de aceitar migalhas como se fossem banquetes.
Quem quer, aparece. Quem quer, cuida. Quem quer, faz acontecer.
E quem não quer… que fique para trás. Sem culpa. Sem saudade. E sem sequer olharmos para trás.

Com amor, FM