O dia amanheceu cinzento.
Uma cor que nada tem a ver com as cores da liberdade.
Mas será que a liberdade tem cor? Tem cheiro? Tem forma?
Ou será que é apenas uma sensação? Um sussurro que se instala dentro de nós, ou uma ausência — de medo, de culpa, de amarras? Será apenas um adjetivo de circunstância? Ou um pronome pessoal que agarramos como nosso?
Será a liberdade uma convenção?
Quantos vivem convencidos de que são livres, mas na verdade caminham dentro de prisões invisíveis?
Presos a convenções sociais, a crenças antigas que já não lhes servem, a relações que os diminuem, a medos que os imobilizam.
Chamam-lhe rotina, responsabilidade, maturidade, respeito pelo outro, persistência.
Mas será que é mesmo isso? Ou será que aprenderam a chamar liberdade àquilo que, no fundo, os prende?
A liberdade verdadeira não grita.
Sussurra.
Chega devagar, quando nos escutamos sem filtros, quando deixamos cair as máscaras que fomos colando ao longo da vida para agradar, para caber, para sobreviver.
Liberdade é dizer “não” quando todos esperam o “sim”.
É escolher sair, quando nos disseram para ficar.
É seguir um caminho que ninguém traçou, mesmo que o chão ainda esteja por fazer.
Liberdade é aceitar a vida como ela é, sem criar expectativas nos outros, muito menos em nós. Não fazer planos para a vida, para não estragarmos o que a vida tem para nos trazer.
Liberdade é entregarmo-nos à vida, e aos momentos, e escolhermos o que nos ecoa no coração.
Não como um ato libertino, mas como um ato de amor próprio.
A vida tem-me ensinado que quando assim é, vivemos as estórias mais bonitas que poderíamos imaginar, e temos os segredos mais maravilhosos para um dia, quem sabe, contar.
E há os que se habituaram tanto à sua prisão, que já nem a reconhecem como tal.
Decoraram as grades com flores, penduraram nelas memórias, desculpas e sonhos adiados.
Chamam-lhe “vida real”.
Dizem que não têm escolha. Que é assim mesmo.
Mas será?
Será que a liberdade é um luxo, reservado a quem tem tempo, dinheiro ou coragem?
Ou será que é uma escolha, difícil mas possível, em cada gesto, em cada pensamento?
Quantas Pessoas conheces — ou és — que vivem suspensas?
Entre o que sentem e o que mostram.
Entre o que desejam e o que dizem.
Entre o que são e o que os outros esperam que sejam.
A liberdade começa aí:
no instante em que nos damos conta de que estamos presos.
No primeiro suspiro de quem percebe que não aguenta mais.
Naquela faísca que, mesmo no meio do cansaço, diz: “eu quero mais de mim”.
Falo-te disto porque sei o que é viver presa.
Durante muito tempo fiz escolhas com medo — medo de dececionar, de perder, de errar, de me sentir só.
Deixei-me levar por caminhos que pareciam seguros, que me faziam estremecer e não me faziam vibrar por dentro, porque é sempre mais fácil viver no conforto da previsibilidade (ou não).
Só mais tarde, já com metade da vida vivida, comecei a perceber que não há tempo a perder.
Hoje. Ah, hoje, sinto-me livre.
Não porque tenho tudo controlado, mas precisamente porque deixei de tentar controlar tudo.
Faço escolhas sentidas, mesmo sem garantias.
Entrego-me aos momentos com a alma inteira, porque quando sinto, faz sentido.
Não vivo agarrada às expectativas, mas sim ao presente.
Obviamente que não sou irresponsável — continuo a ter pés na terra — mas agora, finalmente, vivo com o coração ao alto.
E essa fidelidade a mim mesma, aos meus desejos mais profundos, é a minha forma de liberdade.
É a minha verdade.
E, talvez, seja esse o único caminho possível para viver inteira — mesmo que isso signifique, por vezes, começar de novo. E ancorar todas as expectativas que poderia ter numa pedra bem pesada e atira-la ao fundo do mar. O mar da esperança. Porque cada dia traz sempre inúmeras possibilidades. Cada encontro pode trazer algo mágico, e uma luz que se perpetua na eternidade e nos ilumina o caminho.
E a verdade, é que as memórias que comecei a construir neste caminho novo do futuro, são as mais bonitas, aquelas que me fazem arrepiar e perceber que há tanto, mas tanto que a vida nos pode dar!
Sabes, ninguém nos pode dar a liberdade.
Ela nasce dentro.
É um pacto íntimo, uma promessa silenciosa: a de não nos abandonarmos mais.
E tu?
Onde tens estado?
Tens-te escutado, ou apenas obedecido?
Tens vivido, ou apenas sobrevivido?
Talvez esteja na hora de te perguntares:
e se não fores livre?
O que é que estás à espera para seres?
Sabes, ninguém nos pode dar a liberdade.
Ela não se compra, não se mendiga, não se herda.
Ela conquista-se. Dentro.
Quando paramos de fugir de nós mesmos.
Quando deixamos de estar presos aos dogmas, e aos pensamentos que nos pesam como fardos que carregamos, e nem nos damos conta.
Quando deixamos de pedir desculpa por existir.
Ser livre é um ato de coragem.
É dizer ao mundo: "eu escolho-me, mesmo que me custe, mesmo que me julguem, mesmo que me deixem."
É despir camadas. É sair da caverna. É olhar a vida nos olhos e dizer: "é agora."
E tu?
Onde estás?
Ainda a tentar encaixar num molde que já nem sabes de quem é?
Ainda a adiar o que te faz vibrar, por medo de perder o que te esvazia?
Talvez esteja na hora.
De fazer silêncio por dentro.
De escutar aquele sussurro que te chama há tanto tempo.
De parar de sobreviver… e começar, finalmente, a viver.
Porque se não fores livre, então o que és?
Com amor, FM
