terça-feira, 20 de maio de 2014

De coração lavado






Hoje acordei com o coração lavado pelas lágrimas que chorei no fim de semana. Lavado de tristeza. Lavado de lembranças. Lavado de saudade. Lavado de pensamentos daquilo que não foi e poderia ter sido. Lavado de um mundo que pensei ser um dia e que não é mais. Lavado.

Tão lavado que hoje brilha, sacudida toda a poeira que teimou em assentar e ficar agarrada a mim para todo o sempre.

Às vezes é assim. Acumulamos as réstias daquilo que vamos sentindo dia após dia, pedacinhos do céu que nos cobre, e que não conseguimos mais conter em nós. E chega a um dia, que ficamos tão cheios de tudo e de nada ao mesmo tempo, que temos que nos soltar. Que temos de nos libertar de todo o peso que não é nosso e que carregamos mesmo sem dar por isso.

Soltar, desprender, aceitar, deixar fluir.

E assim foi: entreguei-me ao momento e àquilo que eu senti, e soltei a tristeza que me percorria, e algo bem lá no fundo me dizia que saindo, não mais iria voltar. Porque o que foi, não o é mais.

Às vezes é assim. A dor é tão grande e percorre cada parte do nosso corpo, que já nem sabemos do que nos queixamos. Se do corpo. Se da alma. E pedimos que a vida nos dê um toque de magia e leve tudo aquilo que pincela e teima em escurecer o nosso dia, mesmo que o sol esteja mais forte que nunca, e o calor que dele emana exista para nos aquecer.



Eu também sou assim.

Céu e terra. Calor e frio. Distância e proximidade. Alegria e nostalgia. Tudo e nada ao mesmo tempo. Pois é nestas antíteses que me construo e reinvento. E é nos dias de chuva que rego o meu jardim e todas as sementes que lá coloco.

Tempos houve em que achava que estar triste era sinónimo de ser fraco. Hoje sei que não existe nada mais absurdo no mundo.

Porque os fortes também choram. E estar mais sensível não é igual a ser frágil. Estar triste não quer dizer que sejamos pessimistas ou estejamos derrotados. Porque estar não é igual a ser. E o poder das palavras é tão forte que muitas vezes colocamos em nós coisas que não nos pertencem nem constroem o nosso eu. Por isso acredito que é muito importante conhecermo-nos bem. Sabermos quem somos, compreendermos o que sentimos, identificarmos as razões que nos fazem agir, faz com que preservemos a nossa identidade. E é assim que por muito que nos digam o contrário, ninguém toca nesse lugar tão misterioso, quanto profundo, quanto maravilhoso que é a nossa essência.

A minha é tão complexa, que por vezes sinto que ninguém até hoje foi capaz de me conhecer verdadeiramente.

Eu sou forte. Acredito num amanhã melhor. Vivo num arco-íris colorido pelos sonhos que ainda quero realizar. E às vezes também choro.

O que quero deixar aqui escrito para uma eternidade daqueles que são também como eu, humanos e conscientes do mundo e que por vezes choram e se sentem perdidos, é uma mensagem de esperança, de fé, de bem-querer.

Porque é quando me perguntam se eu por vezes não fico triste, se não desanimo, se por vezes não o chão não me foge dos pés, que eu respondo: foge sim. Mas eu corro para apanha-lo. Se caio, levanto-me. Se fico triste, aceito a tristeza que me invade e penso sempre, que por muito escura que seja a noite, termina sempre com o nascer do sol.

Porque somos todos meio Humanos, meio Deuses. E se temos que por vezes sentir um sabor amargo na boca e no coração, ele existe para que possamos sentir o seu oposto. E ter dias cheios de cor, cheios de paz, cheios de amor.

Hoje e mais que nunca, aceito as minhas imperfeiçoes, pois são elas que dão um toque de perfeição a quem me sente com o coração. Vivo em gratidão e em esperança. Tenho fé em mim e no mundo. E acredito, que estes dias em que fico com o coração lavado são aqueles que me permitem direcionar e reajustar as velas do meu barco e leva-lo aonde eu sou feliz.



E vocês, quantas vezes acordaram com o coração lavado?



FM




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