quarta-feira, 30 de julho de 2014

Estreitar laços


 

 




Falar sobre a amizade, é falar sobre algo intocável, inexplicável, que sentimos dentro de nós como algodão doce, saboroso, colorido, e que se desfaz na boca e no coração sempre que o digerimos, e nos dá vontade de querer mais, mais e mais.
Falar sobre amizade é sussurrar uma melodia alegre com todas as notas musicais, pois tal como cada nota, cada ser humano é completamente diferente em si mesmo, e são estas diferenças que compõem o ritmo da música. É algo que não conseguimos ver, tocar explicar, traduzir em palavras porque, como qualquer sentimento, ultrapassa qualquer definição.
Se genericamente temos a tendência de nos aproximarmos de pessoas mais semelhantes a nós seja pelos gostos, estilo de vida ou até mesmo de vestir, a capacidade de amar alguém desta forma tão simples não tem idade, género, raça ou qualquer tipo de categorização. E é algo inato, que se manifesta à partida deste a infância e que permanece até que um dia a vida nos leve.
Para mim a amizade é um amor sem paixão, sem aquela vontade louca e desenfreada de tocar. Mas acima de tudo, num sentido mais lato a amizade também é amor. E um amor verdadeiro não existe sem amizade. Pois nesta definição cabe todo um bem-querer, uma presença constante, mesmo que não estejamos sempre com aquela pessoa.

Talvez por ter os sentimentos à flor da pele, tudo o que me vai no coração cai em mim como um raio de sol, e aquece-me a alma mesmo nos dias mais nublados. Quando gosto, gosto mesmo e sinto uma vontade imensa de o expressar, iluminando os dias de quem de uma forma ou outra está mais perto de mim.
Ao longo da nossa vida, são inúmeras as pessoas com quem nos cruzamos. Algumas delas permanecem mais tempo, outras apenas breves instantes. Há pessoas até com quem não temos uma ligação muito extensa no tempo, mas que nos tocam a alma como se tivessem umas mãos mágicas. São pessoas com as quais sentimos uma ligação forte, um carinho especial, uma vontade de sorrir, de ajudar, de bem-querer, algo que ultrapassa até os limites da nossa própria existência pois se nos pedissem para transmitir o que de facto sentimos por aquela pessoa, não saberíamos definir. E isto manifesta-se através de um olhar, de uma palavra, pequenos gestos que fazem a diferença em determinados momentos. Será isto amizade?
Talvez sim. Ou seja talvez apenas um gostar doce e suave, pois aquilo que acontece se encaixa no que nós somos no momento na perfeição. Mais forte ou mais ténue, acredito que uma relação de amizade pode permanecer perene no tempo, muito para além de qualquer espaço físico, mas que antes de qualquer coisa deve ser cuidada, tal e qual uma flor num vaso que não precisa de muita coisa, apenas de água para se manter viva. E o que é a água para as relações? A água é a compreensão, a disponibilidade, a entrega, o respeito, a atenção, a preocupação, mesmo que não sejam manifestados todos os dias até porque, de facto, a vida profissional e as preocupações quotidianas não nos permitem estar presentes com muita regularidade.
Dizem que sou uma pessoa exigente nas minhas relações. Talvez sim, talvez não. Tudo depende da forma como se veem as coisas. O que sei é que a minha intensidade não me permite ser uma pessoa “mais ou menos” e ter amizades “mais ou menos”, pois coisas “mais ou menos” são coisas amorfas, cinzentas, sem cor, sem cheiro, e que não sabemos muito bem a que sabe.
Para além disso acredito que, tal como o nosso corpo que vai crescendo e mudando à medida que os anos passam e ficando imune às doenças que por ele passam, também o conceito interno que temos acerca das relações muda. E vamos ficando imunes a pequenas coisas que em algum momento da nossa vida nos incomodaram e que hoje, pela maturidade já não valorizamos.
Dou por mim a pensar muitas vezes em pessoas que estiveram muito presentes em determinadas fases da minha vida, mas que, por um motivo ou por outro, a vida fez com que estivéssemos mais distantes. Motivos pessoais, profissionais ou até mesmo relacionais, sem que existisse motivos maiores para chatices, lembro-me muitas vezes de pessoas especiais com quem me cruzei e que agora não fazem parte do meu dia-a-dia com a mesma frequência com que já o foram.
Por isso, hoje, o dia internacional da amizade, a minha ode vai para todas aquelas pessoas com quem já ri, brinquei, sonhei, e chorei, pessoas com quem fiz juras de amizade eternas, pessoas que me fizeram bem, outras menos bem, isso não importa agora. No fundo, pessoas maravilhosas que deixaram um pouco de si, e levaram um pouco de mim. Pessoas às quais estou eternamente grata pelo que me partilharam e pelo que me ensinaram.
Acho que, se em determinados momentos estive perto de pessoas que me deixaram mais triste por um motivo qualquer, hoje sei que a vida é feita dessas coisas. Como seres humanos, não somos perfeitos, por mais aspirações que tenhamos da perfeição, todos esses momentos fizeram parte do meu crescimento e me ajudaram a ser a mulher que eu sou hoje, acima de tudo amiga de quem, mais perto ou mais longe, faz parte do meu dia-a-dia.
Hoje, no dia internacional da amizade deixo um desafio: que tal pegar no telefone e dizer a alguém especial na nossa vida que é importante para nós?
Cuidemos do nosso jardim. Não tenho dúvida que os nossos amigos dão mais cor aos nossos dias. Muitas vezes, deixamos passar o tempo e com ele fica por dizer tudo o que temos cá dentro. Cuidemos do que é importante, tal como cuidamos de nós. São estas pequenas grandes coisas de que nos esquecemos com facilidade e que estreitam os nossos laços…
Vale a pena pensar nisto.

FM

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