Não sou muito hábil em
discursos. Quis a vida que me expressa-se mais fácil e genuinamente através da
escrita, e com muito, muito prazer. Por isso, dou por mim muitas vezes a passar
para o papel aquilo que sinto, para que a sensação de que algo fique por dizer
não me acompanhe alguns dias.
Passam por nós inúmeras
pessoas, algumas que nos dizem mais, outras menos. Umas que temos vontade
de ter sempre por perto, outras de vez em quando, outras com as quais
desejaríamos nunca ter cruzado.
Umas que ficam por
dias, outras por anos, outras até para sempre. No meio deste universo de encontros e desencontros, a vida passa tão segura de si mesma que não temos tempo de lhe dizer para andar mais devagar para que possamos viver as coisas boas de forma mais intensa.
E assim guardamos em nós aquelas pessoas que nos tocam o coração, pessoas que podem ter tanto de divino como de infernal.
É, existem pessoas que nos provocam por vezes mudanças tão profundas que nos marcam para todo o sempre, e nunca mais somos os mesmos.
É, acredito que existe algo de mais transcendente na vida, e que são por vezes as pessoas que nos causam mais sofrimento, que nos desiludem, que nos magoam, as mesmas que nos proporcionam mais mudanças.
É, também a lagarta passa por uma metamorfose dura e violenta para se transformar numa linda borboleta.
Porque assim é a vida: tão mágica quão incompreensível. Tão doce como quão amarga. Tão terrena como celestial. E só assim crescemos, evoluímos e aprendemos algo. Mudar custa, mas permanecer sempre igual custa muito mais, e algo bem dentro de mim me diz que nada do que existe de verdadeiramente bom na vida é apenas fruto de um mágico destino.
E se existem seres que passam na nossa vida e nos deixam apreensivos pela sua postura e modo de ser, existem por si só seres maravilhosos, pessoas que acalentam os nossos sonhos, nos dão confiança e nos fazem acreditar que só por elas, já valeu a pena existir. Pessoas em jeito de anjo, que permanecem mais próximas no amor que nos une e que são como alguém me disse um dia “pequenas estrelas” que dão luz aos nossos dias e nos fazem felizes. Pessoas que dão cor e forma à palavra amizade e a cozinham em lume brando com amor, entrega, respeito, confiança e muita aceitação das caraterísticas individuais, mesmo que diferentes das delas.
Há quem chame amizade a outras coisas. Para mim é isto. Ou mais que isto.
Porque para receber é preciso dar. Porque há quem viva sem saber o significado da palavra gratidão. Porque há quem confunda sinceridade, com frieza e brutalidade. E numa amizade, apesar de existir compreensão, existe algo mais forte que tudo o resto: um amor fraterno e uma entrega que por vezes nos deixa despidos. Despidos de preconceitos. Despidos de todos os artifícios que carregamos no dia-a-dia por força da sociedade. Despidos na nossa essência. Na nossa verdade.
Umas de longos anos, outras mais recentes, sinto-me abençoada pelas amizades que tenho, pequenos anjos que cuidam de mim, e eu deles, porque a amizade não existe em si mesma sem reciprocidade, mesmo que não se esteja sempre lá.
E é o coração que torna um amplo espaço em algo pequeno, por mais quilómetros de distância que existam. Deve ser por isso que quando estamos perto de alguém de quem gostamos muito e queremos dizer algo forte, baixamos o tom, como se estivéssemos a contar um segredo. A linguagem do coração é um sussurro.
É certo que nem todos somos perfeitos, cada um com suas qualidades e lados lunares, é certo que a vida nem sempre nos permite estar perto e dizer com a regularidade que desejamos o quão gostamos de quem nos faz bem, é certo que por vezes os dissabores da vida e principalmente com alguns seres humanos, nos fazem ficar mais frios.
Mas, hoje tenho em mim que não há nuvem tão negra que retire a cor e apague a força do de um coração sincero quando quer dizer o quanto que gosta de alguém.
Hoje estou certa que não há pessoas certas nem erradas, melhores ou piores.
Existem sim pessoas com vontades diferentes, pessoas com egos de tamanhos diferentes que se sobrepõem a mais ou menos coisas, pessoas com princípios e valores diferentes dos nossos e que colidem diretamente com aquilo que acreditamos.
E no fundo vivemos a acreditar que em algum aspeto, aqueles de quem gostamos vão corresponder àquilo que esperamos. Daí vermos por vezes em pessoas que um dia nos disseram tanto, atitudes incompreensíveis à luz dos nossos olhos.
Por isso nos desiludimos.
Porque o que nos mata é aquilo que esperamos dos outros. Não aquilo que eles são de verdade.
E no fundo no fundo, quem disse que têm de ser como nós queremos?
Mas não é o que de menos bom acontece que me alimenta. Hoje apenas sei que descobrimos o lado mais doce da vida porque em algum momento soubemos o que era o seu oposto. E para sentirmos o que são Amigos de verdade, temos de saber o que não o é. Assim existe o preto para o branco, tal como a noite está para o dia.
O que a vida me mostrou até hoje faz-me pensar que tudo existe em nós para nos fazer crescer e evoluir. E que são por vezes as pessoas que mais nos magoam e nos desapontam, que nos fazem crescer e mover ainda com mais força em direção àquilo em que acreditamos. E eu, vivo a acreditar na vida, no amor, na amizade, na confiança, no respeito.
Deve ser por isso que todos os dias quando acordo sigo sempre em direção aos meus sonhos, vivendo de forma genuína tudo aquilo em que acredito verdadeiramente. E lá sigo o meu destino, rego as minhas plantas e amo as minhas rosas com todos os espinhos que possam ter. O resto é como o grande poeta disse um dia: “sombra de árvores alheias”.
E vocês?
Seguem o que acreditam verdadeiramente?
Estão felizes com as pequenas estrelas que iluminam a vossa noite?
Mudariam alguma coisa?
Vale a pena pensar
nisto.
FM

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