Anoiteceu.
Com a noite, um manto escuro cobre o céu, agora pintado de estrelas. Não consigo dormir. Enrolada em memórias, com os sentimentos à flor da pele.
Hoje foi o Dia da Mãe. Um dia de emoções, de lembranças do que foi, do que é, do papel que tenho, da minha infância, da minha história, de tanto que vivi e de tanto que ainda quero viver.
Penso na minha mãe. Na minha madrinha — uma “segunda” mãe que honrou o seu papel com tudo o que isso significa. Em todas as mães. Em todos os filhos.
Penso em mim, desde o momento em que fui mãe pela primeira vez. Aquele instante em que o tempo parou e tudo mudou. A partir dali, nunca mais fui só eu. Na verdade, nunca mais me senti só. Acho que este é um sentimento que preenche todas as mães.
Ser mãe é uma entrega total. É esquecer-nos de nós e viver com o coração a bater fora do corpo.
É colocar o mundo às costas com a força de quem não sabe bem como, mas sabe porquê.
É cuidar até ao cansaço. É errar, tentando proteger. É amar tanto que até dói.
Sabes, aprendi que os filhos não nos pertencem. Vieram viver as suas histórias, atravessar os seus próprios desafios.
E nós, tantas vezes, queremos poupá-los às dores — mas penso naquela metáfora da borboleta, que precisa de romper o casulo para ganhar asas. Se a ajudarmos antes do tempo, ela não aprende a voar.
É assim também com os filhos: precisamos de estar por perto, mas permitir que sejam eles a voar.
Penso no exemplo que tenho.
Uma mãe coragem — audaz, determinada, sem papas na língua, divertida e ainda com tantos sonhos por realizar.
Penso que, muitas vezes, nós somos a esperança das nossas mães.
Que nos olham como o reflexo do caminho que, por tantas razões, não conseguiram percorrer.
E, com isso, carregamos um amor imenso… mas também expectativas e silenciosas projeções.
A psicologia fala disso — dos padrões transgeracionais, das heranças emocionais que passam de mãe para filha como se fossem invisíveis fios de costura que nos vão moldando por dentro.
Mesmo quando tentamos ser diferentes, damo-nos por nós a repetir gestos, frases, formas de estar.
Porque aquilo que se vive no berço molda a pele — e, muitas vezes, também o coração.
Mas ser mãe também é ter consciência disso. É escolher, conscientemente, o que queremos manter e o que queremos transformar.
É perdoar. É libertar. É reescrever a história onde for preciso.
Acredito genuinamente que ninguém entra na nossa vida por acaso. E também sei que não estamos na mesma família por acaso — há sempre um propósito maior.
Às vezes, só o tempo o revela. É com a família que enfrentamos os maiores desafios… e aprendemos a lidar com eles.
Hoje, o sono não vem porque o coração está cheio — de amor, de gratidão, de saudade e, talvez, de muitas interrogações.
Porque ser mãe também é falhar. Mas é continuar. Sempre continuar.
E nesta noite sem sono, olho as estrelas e penso em todas as mães.
Nas que estão. Nas que já partiram. Nas que lutam. Nas que choram. Nas que sorriem.
E, no meio de tudo, agradeço.
Porque ser mãe é a maior viagem que já fiz.
Ser mãe é um eterno equilíbrio entre o querer proteger e o precisar deixar ir.
É apertar o peito quando vemos os filhos sofrer… e segurar as palavras, porque sabemos que há dores que têm de ser sentidas para crescer.
Quantas vezes me apeteceu pegar nas minhas filhas ao colo, congelar o tempo, afastar o mundo, impedir o inevitável?
Mas ser mãe também é confiar — neles, na vida e em nós.
É um exercício de humildade, porque nem sempre temos respostas.
É um ato de fé, porque amamos mesmo quando nos sentimos exaustas, partidas, invisíveis.
É uma forma de amor que não cabe em definição, feita de mil gestos pequenos: o beijo de boa noite, o bilhete na lancheira, o olhar atento, o coração sempre alerta.
Nesta noite, entre pensamentos e silêncios, abraço em mim a mulher que sou.
A filha. A afilhada. A mãe.
E também a criança que um dia precisou tanto de colo, e que aprendeu, com o tempo, a dar colo a si mesma.
Ser mãe também é aprender a amar-se acima de todas as coisas.
É cuidar-se, para poder estar bem e cuidar de quem precisa.
Este é talvez um dos maiores atos de amor — por nós, e por eles.
Ser mãe não é ser perfeita. É ser presente.
É continuar a amar, mesmo quando nos esquecemos de nós.
É lembrar, todos os dias, que apesar de tudo, estamos a fazer o melhor que conseguimos com o que sabemos e sentimos.
E por isso, hoje — nesta noite sem sono — deixo aqui um abraço a todas as mães.
Às que estão a começar. Às que choram baixinho. Às que se reinventam.
Às que não têm filhos, mas são mães do coração.
Às que partiram, mas continuam vivas dentro de nós.
Que os dias das mães tenham sempre uma pontinha de felicidade.
Com tudo o que isso carrega: a beleza, a dor, a entrega, o amor.
Com amor,
FM

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