Recomeçar é também um ato de amor
Há momentos na vida em que o amor nos convida a ficar. Mas há outros em que, por mais que doa, ele nos pede que partamos.
Este texto nasceu num desses dias em que o coração está cheio, mas o peito precisa de espaço para respirar. Uma reflexão sobre o respeito, o silêncio, a ausência — e o amor-próprio. Porque amar alguém não deve significar desistir de nós.
A chuva cai lá fora. Maio está inconstante — como sinto que seguem os meus dias.
Nesta oscilação de sentimentos e momentos, há algo que não me larga: dissertações sobre o amor.
Há quem diga que amar é esperar. Mas eu aprendi que amar, verdadeiramente, é respeitar. E o primeiro respeito que devemos cultivar é aquele que oferecemos a nós próprios.
Demorei a perceber que, muitas vezes, deixamos de ser prioridade na nossa própria vida para manter o lugar de alguém que já não sabe se quer estar ali. E, ainda assim, ficamos. Acreditamos. Esperamos. Até percebermos que, na verdade, estamos a desistir de nós.
Até que um dia decidimos. Escolhemos ficar conosco. Escolhemos pôr fim a um ciclo onde o nosso coração se afoga na dúvida e no silêncio. Não porque deixámos de sentir — mas porque aprendemos que amor que não flui, fere. Que presença sem entrega, esvazia.
É fácil dizer que se é verdadeiro. Difícil é sê-lo quando a verdade exige coragem. Porque verdade não é apenas falar — é agir com coerência ao que se sente. É não desaparecer quando alguém nos entrega o coração nas mãos. Fugir da verdade, mesmo com mil justificações, é parecido com mentir. A ausência de atitude é, em si, uma atitude clara.
Muitos chamam “respeito” ao silêncio. Mas há silêncios que gritam desrespeito. Há silêncios que pesam mais do que palavras duras, porque deixam quem ama num vazio sem chão.
Acredito que, quando estamos conectados à nossa essência, tudo em nós grita por verdade. Por reciprocidade. Por um amor inteiro.
Hoje sei que pôr os pontos nos is é uma das maiores provas de amor que podemos dar — a nós mesmos. É dizer: “cheguei até aqui com o coração aberto, mas se não me acompanhas com clareza, eu sigo com dignidade”.
E no meio deste turbilhão, no meio da dor, sentimos paz. Porque, quando nos escolhemos a nós mesmos — mesmo de coração partido — o universo começa a alinhar-se com quem realmente somos. Com a maturidade, percebemos que o coração já não se parte: porque a cola dos dissabores da vida fortalece. E cola tudo.
Se um dia voltares, que seja com verdade nos olhos. Que tragas contigo, não promessas, mas presença. Porque o que eu tenho para oferecer é real — e só pode ser partilhado com quem sabe cuidar.
Ficar é um ato de coragem. Mas partir, quando é preciso, é um ato de amor.
Porque eu não desisti do amor — apenas escolhi recomeçar com valor. Escolhi investir em mim, no que é verdadeiro, no que se constrói com presença e não com incertezas. Estou a plantar novos caminhos, com raízes firmes e intenção clara. Sei o que mereço — e não aceito menos. Não por orgulho, mas por amor.
Porque, quando alguém se ama de verdade, já não implora por migalhas — constrói banquetes de alma, onde só se senta quem sabe saborear a verdade.
Se estás a viver um ciclo que te esgota em vez de te nutrir, que te confunde em vez de te acolher, talvez esta leitura te lembre o que já sabes: a tua paz vale mais do que qualquer presença incerta.
Com amor,
FM

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