quarta-feira, 30 de julho de 2025

 

“E se ficasses… mas por vontade?”



Julho está a fechar a porta devagarinho. Os dias estão mais curtos, o tempo mais morno, e eu… cheia. Cheia de vontades, de memórias, de frases por escrever. Quando tudo me transborda, só a escrita me acalma. 

Escrevo para não dizer tudo em voz alta (porque há dias em que se eu disser tudo, sai em CAPS LOCK). Escrevo para não ficar por dizer.

Hoje pensei nisto:


Quantas vezes ficamos onde já não somos escolhidos — só porque fomos, um dia? (Prémio Fidelidade, versão emocional).


Quantas vezes aceitamos menos do que precisamos, só porque “já estamos ali”? (E mudar de lugar dá uma preguiça…)


Quantas vezes confundimos lealdade aos outros com verdade à nossa essência? (Plot twist: são coisas diferentes.)


Quantas vezes aceitamos menos do que merecemos porque temos medo de recomeçar? (Spoiler: recomeçar custa, mas ficar parado afunda.)


Quantas vezes vivemos na ilusão do que não é, mas queríamos tanto que fosse? (Versão premium do autoengano.)

Criamos séries inteiras na cabeça, com direito a temporadas e spin-offs, onde somos guionistas, realizadores e elenco principal… sozinhos.

Agarramo-nos a essa versão editada da realidade enquanto os dias passam, à espera de uma mudança que nunca chega. Porque, no fundo, sabemos: as coisas raramente voltam a ser como foram. E é essa ilusão que adia o fim, como quem vai adiando a dieta para “segunda-feira”.

Quando penso em mim, e na vida que quero ter e empreender nestes anos que me restam, penso que não quero estar na vida de ninguém por obrigação. Nem por pena. Nem por aquela ideia simpática de “é o mínimo”.
Não quero estar na vida de ninguém por favor, por hábito ou por falta de alternativa melhor.

Será isto pedir o que não existe? Ou uma utopia dos contos de fadas (que, sejamos honestos, são a maior fake news da infância moderna)?

Quero ficar porque quero ficar.

Quero que fiquem comigo porque querem ficar. Nunca menos que isso.
Quero ficar porque, quando olham para o lado e me veem, ainda sorriem.
Quero presença de verdade. Daquelas que chegam sem convite, mas sempre com um gesto que vale por mil palavras. Tipo: “Trouxe-te chocolate preto porque imaginei que tivesses tido um dia difícil”. Chocolate cura muita coisa, sabias?

Não sei se já te aconteceu, mas há dias em que parecemos figurantes na vida de alguém que já nos teve como protagonistas. Às vezes estamos com alguém e ainda assim sentimos frio.

Pedimos afeto como quem pede um favor. Explicamos sentimentos como quem defende um projeto em PowerPoint, com direito a bullet points e gráfico de emoções…
Pois.


E no fim ainda ouvimos coisas como:
“Olha que eu não sou teu terapeuta.”
“Queres mimo? Não sou tua mãe.”
“Queres colo? Vai ao IKEA.” 

Mas quem disse que cuidar precisa de rótulo? 

Talvez cuidar seja só isso: querer que o outro esteja bem, mesmo quando não pediu. Sabes que mais? Cuidar de alguém não deve ser um castigo! E amar não deve ser uma penitência! 

Quem disse que o carinho tem manual de instruções? Ou que o cuidado é exclusivo de quem nos pôs no mundo?

Então deixo estas perguntas no ar:
Tu estás onde queres estar — ou onde te habituaste a ficar?
Estás com alguém porque te preenche… ou porque te ocupa? (ás vezes só preocupa :D )

O que é que te faz ficar?
É amor ou é rotina?
É vontade ou é medo de mudar a mobília de sítio?
És feliz aí… ou estás só confortável?
Ficas porque amas, ou porque não tens energia para mudar de lugar?

Sabes, nunca vamos ter todas as respostas.
Dos caminhos que já percorri, só percebi que ficar por ficar é como prender o cabelo com uma mola que já perdeu a força e abrir o frigorífico que sabemos que está vazio, a contar com um milagre.. Apenas aguenta as pontas soltas de uma vida que não é a que sonhamos, que nos faz vibrar, nem aqueles que nos querem bem desejam para nós.

Por falar em aguentar… que vida é essa?

Para ficar, que seja com corpo presente, coração atento e, quem sabe, uma gargalhada a meio da tarde. Ou um encontro surpresa enrolado de beijos e presença e muita areia (na toalha, no carro e na alma). Quem sabe até uma paragem no meio do caminho, com entrega em cima do capot do carro.  Ou então uma cesta de piquenique improvisada com o que houver no carro — pão, queijo e aquela garrafa de vinho que está sempre à espera do dia certo (e afinal, era hoje). E porque não um mergulho sem roupa, só porque o mar estava ali a rir-se de nós. E a vida também precisa de pele à mostra e gargalhadas molhadas. Ah ou um cinema no sofá com filmes que não chegamos a ver, porque entre beijos e conversas, a história mais interessante é a nossa... Ou aquela mensagem às 3 da tarde, só para dizer “lembrei-me de ti a rir” — e isso bastar. 

Porque quem quer ficar… fica. E quem fica, faz questão de fazer (a vida) acontecer.

E eu? Eu tenho estas ideias e muitas mais, até onde a criatividade e os sentimentos à flor da pele me levarem. Porque me despejei da monotonia — e é isso que quero para a minha vida daqui em diante: presença, verdade e emoção. Nunca menos do que isso.

A Ficar, fico. Sempre com VONTADE !

sábado, 26 de julho de 2025

O amor esse lugar por descobrir

 O Amor — esse lugar por descobrir




Outro dia, as minhas filhas perguntaram-me qual era a minha palavra preferida. Respondi sem pensar: amor.

Talvez porque essa palavra tem a forma de tudo o que mais desejo, tudo o que mais me move, tudo o que ainda procuro.


Mas… o que é o amor, afinal?


É difícil definir o que nunca se viveu por inteiro. Sempre sonhei com ele. Sempre acreditei que havia de o encontrar.

Mas, na verdade, nunca o experimentei na forma que nos contam nos livros ou nos filmes.

Não sei o que é sentir que se é casa no abraço de alguém.

Ainda não sei o que é ser escolhida todos os dias, com leveza, com verdade, com amizade.


E, no entanto, sei tanto sobre o amor...

Sei o que é o amor de família — que não precisa ser perfeito, mas é onde voltamos sempre.

Sei o que é o amor entre irmãos, entre primos, entre sobrinhos. Aquele que se constrói nos dias comuns, com piadas internas, telefonemas sem assunto e presenças que aquecem.

Sei o que é amar amigas que são irmãs — mesmo sem sangue em comum. Aquelas que ouvem o que não digo e que aparecem quando o mundo parece pequeno demais para tudo o que carrego.

E sei — com o coração inteiro — o que é o amor de mãe.


Amar as minhas filhas é o mais próximo que conheço de um milagre.

É amar antes de conhecer, antes de ver.

É viver com o coração fora do corpo e chamar-lhe nome próprio.

É o amor que nos transforma e nos redefine.

Como escreveu Pablo Neruda: “Em um beijo, saberás tudo o que eu calei.”

Com elas, não é preciso explicar nada. Elas sabem. Elas sentem.



Sei também o que é o amor que se sente por uma madrinha.

A minha.

Foi com ela que percebi que o amor incondicional não depende de cordões umbilicais, mas de cordões invisíveis que ligam alma a alma.

Com ela aprendi que o amor não grita. Cuida. Fica. Sabe estar. Intensamente.


E sim…

Há amor no trabalho.

Quando se faz com entrega, com intenção. Quando nos importamos.

Tudo o que é feito com amor tem outro sabor, outro brilho, outra força.

O amor está no detalhe, na paciência, no levantar outra vez quando se cai.

Está nos projetos que nos espelham, nos sonhos que partilhamos, no orgulho de construir algo com sentido.

Quando damos o nosso melhor, quando criamos com propósito, quando construímos com outros algo que acreditamos.

Tudo o que é feito com amor tem outro sabor, outra força.

Vinicius de Moraes dizia: “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.”

E eu acredito nisso — o trabalho é, tantas vezes, lugar de encontro!



No fundo, o amor não é só aquele a dois.

Não é só o dos filmes nem dos livros.

É muito mais do que isso.

Mas sim, há um amor que me falta.


O amor que sonhei viver desde sempre.

Não aquele dos contos de fadas. Nem dos casamentos em sunset.

(Aliás… talvez o casamento seja a maior mentira da vida moderna. Porque o que eu quero não é um contrato nem cabe nele — é um compromisso de alma.)


Eu sonho com um amor simples.

Com gestos pequenos e presença inteira.

Com alguém que me ouça com os olhos.

Que me dê a mão num café ao final da tarde.

Que se lembre que gosto de tostas mal passadas.

Que me abrace nos dias bons e, nos dias maus, me abrace ainda mais.

Um amor que seja casa.

Mesmo que pequena. Mesmo sem cortinas novas.

Mesmo sem promessas de sempre — só com vontade de agora.

Carlos Drummond de Andrade escreveu: “O amor é privilégio de maduros… não daqueles que amam de corpo, mas de alma.”

E é esse amor que eu sonho viver.

Um amor maduro. Gentil. Real.

Que não prometa sempre, mas que esteja hoje.


Talvez ainda venha.

Talvez não.

Mas enquanto sonho, vou preenchendo os meus dias com todos os outros amores que me sustentam.

E com o maior de todos: o amor que, finalmente, tenho aprendido a dar a mim mesma.


Talvez esse amor ainda me espere por aí.

E se não vier, ao menos saberei que nunca deixei de o sonhar.