“E se ficasses… mas por vontade?”
Julho está a fechar a porta devagarinho. Os dias estão mais curtos, o tempo mais morno, e eu… cheia. Cheia de vontades, de memórias, de frases por escrever. Quando tudo me transborda, só a escrita me acalma.
Escrevo
para não dizer tudo em voz alta (porque há dias em que se eu disser tudo, sai em
CAPS LOCK). Escrevo para não ficar por dizer.
Hoje pensei nisto:
Quantas vezes ficamos onde já não somos escolhidos — só porque fomos, um dia?
(Prémio Fidelidade, versão emocional).
Quantas vezes aceitamos menos do que precisamos, só porque “já estamos ali”? (E
mudar de lugar dá uma preguiça…)
Quantas vezes confundimos lealdade aos outros com verdade à nossa essência?
(Plot twist: são coisas diferentes.)
Quantas vezes aceitamos menos do que merecemos porque temos medo de recomeçar?
(Spoiler: recomeçar custa, mas ficar parado afunda.)
Quantas vezes vivemos na ilusão do que não é, mas queríamos tanto que fosse?
(Versão premium do autoengano.)
Criamos séries inteiras na cabeça, com direito a temporadas
e spin-offs, onde somos guionistas, realizadores e elenco principal… sozinhos.
Agarramo-nos a essa versão editada da realidade enquanto os
dias passam, à espera de uma mudança que nunca chega. Porque, no fundo,
sabemos: as coisas raramente voltam a ser como foram. E é essa ilusão que adia
o fim, como quem vai adiando a dieta para “segunda-feira”.
Quando penso em mim, e na vida que quero ter e empreender
nestes anos que me restam, penso que não quero estar na vida de ninguém por
obrigação. Nem por pena. Nem por aquela ideia simpática de “é o mínimo”.
Não quero estar na vida de ninguém por favor, por hábito ou por falta de
alternativa melhor.
Será isto pedir o que não existe? Ou uma utopia dos contos
de fadas (que, sejamos honestos, são a maior fake news da infância moderna)?
Quero ficar porque quero ficar.
Quero que fiquem comigo porque querem ficar. Nunca menos que
isso.
Quero ficar porque, quando olham para o lado e me veem, ainda sorriem.
Quero presença de verdade. Daquelas que chegam sem convite, mas sempre com um
gesto que vale por mil palavras. Tipo: “Trouxe-te chocolate preto porque
imaginei que tivesses tido um dia difícil”. Chocolate cura muita coisa, sabias?
Não sei se já te aconteceu, mas há dias em que parecemos
figurantes na vida de alguém que já nos teve como protagonistas. Às vezes
estamos com alguém e ainda assim sentimos frio.
Pedimos afeto como quem pede um favor. Explicamos
sentimentos como quem defende um projeto em PowerPoint, com direito a bullet
points e gráfico de emoções…
Pois.
E no fim ainda ouvimos coisas como:
“Olha que eu não sou teu terapeuta.”
“Queres mimo? Não sou tua mãe.”
“Queres colo? Vai ao IKEA.”
Mas quem disse que cuidar precisa de rótulo?
Talvez cuidar seja só isso: querer que o outro esteja bem, mesmo quando não pediu. Sabes que mais? Cuidar de alguém não deve ser um castigo! E amar não deve ser uma penitência!
Quem disse que o carinho tem manual de instruções? Ou que o cuidado
é exclusivo de quem nos pôs no mundo?
Então deixo estas perguntas no ar:
Tu estás onde queres estar — ou onde te habituaste a ficar?
Estás com alguém porque te preenche… ou porque te ocupa? (ás vezes só preocupa :D )
O que é que te faz ficar?
É amor ou é rotina?
É vontade ou é medo de mudar a mobília de sítio?
És feliz aí… ou estás só confortável?
Ficas porque amas, ou porque não tens energia para mudar de lugar?
Sabes, nunca vamos ter todas as respostas.
Dos caminhos que já percorri, só percebi que ficar por ficar é como prender o cabelo com uma mola que já perdeu a força e abrir o frigorífico que sabemos que está vazio, a contar com um milagre.. Apenas aguenta as pontas soltas de uma vida que não é a que sonhamos, que nos faz vibrar, nem aqueles que nos querem bem desejam para nós.
Por falar em aguentar… que vida é essa?
Para ficar, que seja com corpo presente,
coração atento e, quem sabe, uma gargalhada a meio da tarde. Ou um encontro
surpresa enrolado de beijos e presença e muita areia (na toalha, no carro e na
alma). Quem sabe até uma paragem no meio do caminho, com entrega em cima do capot do carro. Ou então uma cesta de piquenique improvisada com o que houver no carro — pão, queijo e aquela garrafa de vinho que está sempre à espera do dia certo (e afinal, era hoje). E porque não um mergulho sem roupa, só porque o mar estava ali a rir-se de nós. E a vida também precisa de pele à mostra e gargalhadas molhadas. Ah ou um cinema no sofá com filmes que não chegamos a ver, porque entre beijos e conversas, a história mais interessante é a nossa... Ou aquela mensagem às 3 da tarde, só para dizer “lembrei-me de ti a rir” — e isso bastar.
Porque quem quer ficar… fica. E quem fica, faz questão de fazer (a vida) acontecer.
E eu? Eu tenho estas ideias e muitas mais, até onde a criatividade e os sentimentos à flor da pele me levarem. Porque me despejei da monotonia — e é isso que quero para a minha vida daqui em diante: presença, verdade e emoção. Nunca menos do que isso.
A Ficar, fico. Sempre com VONTADE !

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