quarta-feira, 30 de julho de 2025

 

“E se ficasses… mas por vontade?”



Julho está a fechar a porta devagarinho. Os dias estão mais curtos, o tempo mais morno, e eu… cheia. Cheia de vontades, de memórias, de frases por escrever. Quando tudo me transborda, só a escrita me acalma. 

Escrevo para não dizer tudo em voz alta (porque há dias em que se eu disser tudo, sai em CAPS LOCK). Escrevo para não ficar por dizer.

Hoje pensei nisto:


Quantas vezes ficamos onde já não somos escolhidos — só porque fomos, um dia? (Prémio Fidelidade, versão emocional).


Quantas vezes aceitamos menos do que precisamos, só porque “já estamos ali”? (E mudar de lugar dá uma preguiça…)


Quantas vezes confundimos lealdade aos outros com verdade à nossa essência? (Plot twist: são coisas diferentes.)


Quantas vezes aceitamos menos do que merecemos porque temos medo de recomeçar? (Spoiler: recomeçar custa, mas ficar parado afunda.)


Quantas vezes vivemos na ilusão do que não é, mas queríamos tanto que fosse? (Versão premium do autoengano.)

Criamos séries inteiras na cabeça, com direito a temporadas e spin-offs, onde somos guionistas, realizadores e elenco principal… sozinhos.

Agarramo-nos a essa versão editada da realidade enquanto os dias passam, à espera de uma mudança que nunca chega. Porque, no fundo, sabemos: as coisas raramente voltam a ser como foram. E é essa ilusão que adia o fim, como quem vai adiando a dieta para “segunda-feira”.

Quando penso em mim, e na vida que quero ter e empreender nestes anos que me restam, penso que não quero estar na vida de ninguém por obrigação. Nem por pena. Nem por aquela ideia simpática de “é o mínimo”.
Não quero estar na vida de ninguém por favor, por hábito ou por falta de alternativa melhor.

Será isto pedir o que não existe? Ou uma utopia dos contos de fadas (que, sejamos honestos, são a maior fake news da infância moderna)?

Quero ficar porque quero ficar.

Quero que fiquem comigo porque querem ficar. Nunca menos que isso.
Quero ficar porque, quando olham para o lado e me veem, ainda sorriem.
Quero presença de verdade. Daquelas que chegam sem convite, mas sempre com um gesto que vale por mil palavras. Tipo: “Trouxe-te chocolate preto porque imaginei que tivesses tido um dia difícil”. Chocolate cura muita coisa, sabias?

Não sei se já te aconteceu, mas há dias em que parecemos figurantes na vida de alguém que já nos teve como protagonistas. Às vezes estamos com alguém e ainda assim sentimos frio.

Pedimos afeto como quem pede um favor. Explicamos sentimentos como quem defende um projeto em PowerPoint, com direito a bullet points e gráfico de emoções…
Pois.


E no fim ainda ouvimos coisas como:
“Olha que eu não sou teu terapeuta.”
“Queres mimo? Não sou tua mãe.”
“Queres colo? Vai ao IKEA.” 

Mas quem disse que cuidar precisa de rótulo? 

Talvez cuidar seja só isso: querer que o outro esteja bem, mesmo quando não pediu. Sabes que mais? Cuidar de alguém não deve ser um castigo! E amar não deve ser uma penitência! 

Quem disse que o carinho tem manual de instruções? Ou que o cuidado é exclusivo de quem nos pôs no mundo?

Então deixo estas perguntas no ar:
Tu estás onde queres estar — ou onde te habituaste a ficar?
Estás com alguém porque te preenche… ou porque te ocupa? (ás vezes só preocupa :D )

O que é que te faz ficar?
É amor ou é rotina?
É vontade ou é medo de mudar a mobília de sítio?
És feliz aí… ou estás só confortável?
Ficas porque amas, ou porque não tens energia para mudar de lugar?

Sabes, nunca vamos ter todas as respostas.
Dos caminhos que já percorri, só percebi que ficar por ficar é como prender o cabelo com uma mola que já perdeu a força e abrir o frigorífico que sabemos que está vazio, a contar com um milagre.. Apenas aguenta as pontas soltas de uma vida que não é a que sonhamos, que nos faz vibrar, nem aqueles que nos querem bem desejam para nós.

Por falar em aguentar… que vida é essa?

Para ficar, que seja com corpo presente, coração atento e, quem sabe, uma gargalhada a meio da tarde. Ou um encontro surpresa enrolado de beijos e presença e muita areia (na toalha, no carro e na alma). Quem sabe até uma paragem no meio do caminho, com entrega em cima do capot do carro.  Ou então uma cesta de piquenique improvisada com o que houver no carro — pão, queijo e aquela garrafa de vinho que está sempre à espera do dia certo (e afinal, era hoje). E porque não um mergulho sem roupa, só porque o mar estava ali a rir-se de nós. E a vida também precisa de pele à mostra e gargalhadas molhadas. Ah ou um cinema no sofá com filmes que não chegamos a ver, porque entre beijos e conversas, a história mais interessante é a nossa... Ou aquela mensagem às 3 da tarde, só para dizer “lembrei-me de ti a rir” — e isso bastar. 

Porque quem quer ficar… fica. E quem fica, faz questão de fazer (a vida) acontecer.

E eu? Eu tenho estas ideias e muitas mais, até onde a criatividade e os sentimentos à flor da pele me levarem. Porque me despejei da monotonia — e é isso que quero para a minha vida daqui em diante: presença, verdade e emoção. Nunca menos do que isso.

A Ficar, fico. Sempre com VONTADE !

sábado, 26 de julho de 2025

O amor esse lugar por descobrir

 O Amor — esse lugar por descobrir




Outro dia, as minhas filhas perguntaram-me qual era a minha palavra preferida. Respondi sem pensar: amor.

Talvez porque essa palavra tem a forma de tudo o que mais desejo, tudo o que mais me move, tudo o que ainda procuro.


Mas… o que é o amor, afinal?


É difícil definir o que nunca se viveu por inteiro. Sempre sonhei com ele. Sempre acreditei que havia de o encontrar.

Mas, na verdade, nunca o experimentei na forma que nos contam nos livros ou nos filmes.

Não sei o que é sentir que se é casa no abraço de alguém.

Ainda não sei o que é ser escolhida todos os dias, com leveza, com verdade, com amizade.


E, no entanto, sei tanto sobre o amor...

Sei o que é o amor de família — que não precisa ser perfeito, mas é onde voltamos sempre.

Sei o que é o amor entre irmãos, entre primos, entre sobrinhos. Aquele que se constrói nos dias comuns, com piadas internas, telefonemas sem assunto e presenças que aquecem.

Sei o que é amar amigas que são irmãs — mesmo sem sangue em comum. Aquelas que ouvem o que não digo e que aparecem quando o mundo parece pequeno demais para tudo o que carrego.

E sei — com o coração inteiro — o que é o amor de mãe.


Amar as minhas filhas é o mais próximo que conheço de um milagre.

É amar antes de conhecer, antes de ver.

É viver com o coração fora do corpo e chamar-lhe nome próprio.

É o amor que nos transforma e nos redefine.

Como escreveu Pablo Neruda: “Em um beijo, saberás tudo o que eu calei.”

Com elas, não é preciso explicar nada. Elas sabem. Elas sentem.



Sei também o que é o amor que se sente por uma madrinha.

A minha.

Foi com ela que percebi que o amor incondicional não depende de cordões umbilicais, mas de cordões invisíveis que ligam alma a alma.

Com ela aprendi que o amor não grita. Cuida. Fica. Sabe estar. Intensamente.


E sim…

Há amor no trabalho.

Quando se faz com entrega, com intenção. Quando nos importamos.

Tudo o que é feito com amor tem outro sabor, outro brilho, outra força.

O amor está no detalhe, na paciência, no levantar outra vez quando se cai.

Está nos projetos que nos espelham, nos sonhos que partilhamos, no orgulho de construir algo com sentido.

Quando damos o nosso melhor, quando criamos com propósito, quando construímos com outros algo que acreditamos.

Tudo o que é feito com amor tem outro sabor, outra força.

Vinicius de Moraes dizia: “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.”

E eu acredito nisso — o trabalho é, tantas vezes, lugar de encontro!



No fundo, o amor não é só aquele a dois.

Não é só o dos filmes nem dos livros.

É muito mais do que isso.

Mas sim, há um amor que me falta.


O amor que sonhei viver desde sempre.

Não aquele dos contos de fadas. Nem dos casamentos em sunset.

(Aliás… talvez o casamento seja a maior mentira da vida moderna. Porque o que eu quero não é um contrato nem cabe nele — é um compromisso de alma.)


Eu sonho com um amor simples.

Com gestos pequenos e presença inteira.

Com alguém que me ouça com os olhos.

Que me dê a mão num café ao final da tarde.

Que se lembre que gosto de tostas mal passadas.

Que me abrace nos dias bons e, nos dias maus, me abrace ainda mais.

Um amor que seja casa.

Mesmo que pequena. Mesmo sem cortinas novas.

Mesmo sem promessas de sempre — só com vontade de agora.

Carlos Drummond de Andrade escreveu: “O amor é privilégio de maduros… não daqueles que amam de corpo, mas de alma.”

E é esse amor que eu sonho viver.

Um amor maduro. Gentil. Real.

Que não prometa sempre, mas que esteja hoje.


Talvez ainda venha.

Talvez não.

Mas enquanto sonho, vou preenchendo os meus dias com todos os outros amores que me sustentam.

E com o maior de todos: o amor que, finalmente, tenho aprendido a dar a mim mesma.


Talvez esse amor ainda me espere por aí.

E se não vier, ao menos saberei que nunca deixei de o sonhar.

segunda-feira, 12 de maio de 2025

Recomeçar é também um ato de amor






Há momentos na vida em que o amor nos convida a ficar. Mas há outros em que, por mais que doa, ele nos pede que partamos.

Este texto nasceu num desses dias em que o coração está cheio, mas o peito precisa de espaço para respirar. Uma reflexão sobre o respeito, o silêncio, a ausência — e o amor-próprio. Porque amar alguém não deve significar desistir de nós.

A chuva cai lá fora. Maio está inconstante — como sinto que seguem os meus dias.

Nesta oscilação de sentimentos e momentos, há algo que não me larga: dissertações sobre o amor.

Há quem diga que amar é esperar. Mas eu aprendi que amar, verdadeiramente, é respeitar. E o primeiro respeito que devemos cultivar é aquele que oferecemos a nós próprios.

Demorei a perceber que, muitas vezes, deixamos de ser prioridade na nossa própria vida para manter o lugar de alguém que já não sabe se quer estar ali. E, ainda assim, ficamos. Acreditamos. Esperamos. Até percebermos que, na verdade, estamos a desistir de nós.

Até que um dia decidimos. Escolhemos ficar conosco. Escolhemos pôr fim a um ciclo onde o nosso coração se afoga na dúvida e no silêncio. Não porque deixámos de sentir — mas porque aprendemos que amor que não flui, fere. Que presença sem entrega, esvazia.

É fácil dizer que se é verdadeiro. Difícil é sê-lo quando a verdade exige coragem. Porque verdade não é apenas falar — é agir com coerência ao que se sente. É não desaparecer quando alguém nos entrega o coração nas mãos. Fugir da verdade, mesmo com mil justificações, é parecido com mentir. A ausência de atitude é, em si, uma atitude clara.

Muitos chamam “respeito” ao silêncio. Mas há silêncios que gritam desrespeito. Há silêncios que pesam mais do que palavras duras, porque deixam quem ama num vazio sem chão.

Acredito que, quando estamos conectados à nossa essência, tudo em nós grita por verdade. Por reciprocidade. Por um amor inteiro.

Hoje sei que pôr os pontos nos is é uma das maiores provas de amor que podemos dar — a nós mesmos. É dizer: “cheguei até aqui com o coração aberto, mas se não me acompanhas com clareza, eu sigo com dignidade”.

E no meio deste turbilhão, no meio da dor, sentimos paz. Porque, quando nos escolhemos a nós mesmos — mesmo de coração partido — o universo começa a alinhar-se com quem realmente somos. Com a maturidade, percebemos que o coração já não se parte: porque a cola dos dissabores da vida fortalece. E cola tudo.

Se um dia voltares, que seja com verdade nos olhos. Que tragas contigo, não promessas, mas presença. Porque o que eu tenho para oferecer é real — e só pode ser partilhado com quem sabe cuidar.

Ficar é um ato de coragem. Mas partir, quando é preciso, é um ato de amor.

Porque eu não desisti do amor — apenas escolhi recomeçar com valor. Escolhi investir em mim, no que é verdadeiro, no que se constrói com presença e não com incertezas. Estou a plantar novos caminhos, com raízes firmes e intenção clara. Sei o que mereço — e não aceito menos. Não por orgulho, mas por amor.

Porque, quando alguém se ama de verdade, já não implora por migalhas — constrói banquetes de alma, onde só se senta quem sabe saborear a verdade.

Se estás a viver um ciclo que te esgota em vez de te nutrir, que te confunde em vez de te acolher, talvez esta leitura te lembre o que já sabes: a tua paz vale mais do que qualquer presença incerta.

Com amor,
FM


domingo, 4 de maio de 2025

Sobre a Mãe.




Anoiteceu.
Com a noite, um manto escuro cobre o céu, agora pintado de estrelas. Não consigo dormir. Enrolada em memórias, com os sentimentos à flor da pele.
Hoje foi o Dia da Mãe. Um dia de emoções, de lembranças do que foi, do que é, do papel que tenho, da minha infância, da minha história, de tanto que vivi e de tanto que ainda quero viver.

Penso na minha mãe. Na minha madrinha — uma “segunda” mãe que honrou o seu papel com tudo o que isso significa. Em todas as mães. Em todos os filhos.

Penso em mim, desde o momento em que fui mãe pela primeira vez. Aquele instante em que o tempo parou e tudo mudou. A partir dali, nunca mais fui só eu. Na verdade, nunca mais me senti só. Acho que este é um sentimento que preenche todas as mães.

Ser mãe é uma entrega total. É esquecer-nos de nós e viver com o coração a bater fora do corpo.
É colocar o mundo às costas com a força de quem não sabe bem como, mas sabe porquê.
É cuidar até ao cansaço. É errar, tentando proteger. É amar tanto que até dói.

Sabes, aprendi que os filhos não nos pertencem. Vieram viver as suas histórias, atravessar os seus próprios desafios.
E nós, tantas vezes, queremos poupá-los às dores — mas penso naquela metáfora da borboleta, que precisa de romper o casulo para ganhar asas. Se a ajudarmos antes do tempo, ela não aprende a voar.
É assim também com os filhos: precisamos de estar por perto, mas permitir que sejam eles a voar.

Penso no exemplo que tenho.
Uma mãe coragem — audaz, determinada, sem papas na língua, divertida e ainda com tantos sonhos por realizar.
Penso que, muitas vezes, nós somos a esperança das nossas mães.
Que nos olham como o reflexo do caminho que, por tantas razões, não conseguiram percorrer.
E, com isso, carregamos um amor imenso… mas também expectativas e silenciosas projeções.

A psicologia fala disso — dos padrões transgeracionais, das heranças emocionais que passam de mãe para filha como se fossem invisíveis fios de costura que nos vão moldando por dentro.
Mesmo quando tentamos ser diferentes, damo-nos por nós a repetir gestos, frases, formas de estar.
Porque aquilo que se vive no berço molda a pele — e, muitas vezes, também o coração.
Mas ser mãe também é ter consciência disso. É escolher, conscientemente, o que queremos manter e o que queremos transformar.
É perdoar. É libertar. É reescrever a história onde for preciso.

Acredito genuinamente que ninguém entra na nossa vida por acaso. E também sei que não estamos na mesma família por acaso — há sempre um propósito maior.
Às vezes, só o tempo o revela. É com a família que enfrentamos os maiores desafios… e aprendemos a lidar com eles.

Hoje, o sono não vem porque o coração está cheio — de amor, de gratidão, de saudade e, talvez, de muitas interrogações.
Porque ser mãe também é falhar. Mas é continuar. Sempre continuar.

E nesta noite sem sono, olho as estrelas e penso em todas as mães.
Nas que estão. Nas que já partiram. Nas que lutam. Nas que choram. Nas que sorriem.
E, no meio de tudo, agradeço.

Porque ser mãe é a maior viagem que já fiz.

Ser mãe é um eterno equilíbrio entre o querer proteger e o precisar deixar ir.
É apertar o peito quando vemos os filhos sofrer… e segurar as palavras, porque sabemos que há dores que têm de ser sentidas para crescer.
Quantas vezes me apeteceu pegar nas minhas filhas ao colo, congelar o tempo, afastar o mundo, impedir o inevitável?

Mas ser mãe também é confiar — neles, na vida e em nós.
É um exercício de humildade, porque nem sempre temos respostas.
É um ato de fé, porque amamos mesmo quando nos sentimos exaustas, partidas, invisíveis.
É uma forma de amor que não cabe em definição, feita de mil gestos pequenos: o beijo de boa noite, o bilhete na lancheira, o olhar atento, o coração sempre alerta.

Nesta noite, entre pensamentos e silêncios, abraço em mim a mulher que sou.
A filha. A afilhada. A mãe.
E também a criança que um dia precisou tanto de colo, e que aprendeu, com o tempo, a dar colo a si mesma.

Ser mãe também é aprender a amar-se acima de todas as coisas.
É cuidar-se, para poder estar bem e cuidar de quem precisa.
Este é talvez um dos maiores atos de amor — por nós, e por eles.

Ser mãe não é ser perfeita. É ser presente.
É continuar a amar, mesmo quando nos esquecemos de nós.
É lembrar, todos os dias, que apesar de tudo, estamos a fazer o melhor que conseguimos com o que sabemos e sentimos.

E por isso, hoje — nesta noite sem sono — deixo aqui um abraço a todas as mães.
Às que estão a começar. Às que choram baixinho. Às que se reinventam.
Às que não têm filhos, mas são mães do coração.
Às que partiram, mas continuam vivas dentro de nós.

Que os dias das mães tenham sempre uma pontinha de felicidade.
Com tudo o que isso carrega: a beleza, a dor, a entrega, o amor.

Com amor,
FM

sexta-feira, 25 de abril de 2025

A Gaiola sem grades




O dia amanheceu cinzento.


Uma cor que nada tem a ver com as cores da liberdade.
Mas será que a liberdade tem cor? Tem cheiro? Tem forma?
Ou será que é apenas uma sensação? Um sussurro que se instala dentro de nós, ou uma ausência — de medo, de culpa, de amarras? Será apenas um adjetivo de circunstância? Ou um pronome pessoal que agarramos como nosso?

Será a liberdade uma convenção?

Quantos vivem convencidos de que são livres, mas na verdade caminham dentro de prisões invisíveis?
Presos a convenções sociais, a crenças antigas que já não lhes servem, a relações que os diminuem, a medos que os imobilizam. 
Chamam-lhe rotina, responsabilidade, maturidade, respeito pelo outro, persistência.
Mas será que é mesmo isso? Ou será que aprenderam a chamar liberdade àquilo que, no fundo, os prende?

A liberdade verdadeira não grita.
Sussurra.
Chega devagar, quando nos escutamos sem filtros, quando deixamos cair as máscaras que fomos colando ao longo da vida para agradar, para caber, para sobreviver.

Liberdade é dizer “não” quando todos esperam o “sim”.
É escolher sair, quando nos disseram para ficar.
É seguir um caminho que ninguém traçou, mesmo que o chão ainda esteja por fazer.

Liberdade é aceitar a vida como ela é, sem criar expectativas nos outros, muito menos em nós. Não fazer planos para a vida, para não estragarmos o que a vida tem para nos trazer.

Liberdade é entregarmo-nos à vida, e aos momentos, e escolhermos o que nos ecoa no coração.

Não como um ato libertino, mas como um ato de amor próprio. 

A vida tem-me ensinado que quando assim é, vivemos as estórias mais bonitas que poderíamos imaginar, e temos os segredos mais maravilhosos para um dia, quem sabe, contar.

E há os que se habituaram tanto à sua prisão, que já nem a reconhecem como tal.
Decoraram as grades com flores, penduraram nelas memórias, desculpas e sonhos adiados.
Chamam-lhe “vida real”.
Dizem que não têm escolha. Que é assim mesmo.

Mas será?

Será que a liberdade é um luxo, reservado a quem tem tempo, dinheiro ou coragem?
Ou será que é uma escolha, difícil mas possível, em cada gesto, em cada pensamento?

Quantas Pessoas conheces — ou és — que vivem suspensas?
Entre o que sentem e o que mostram.
Entre o que desejam e o que dizem.
Entre o que são e o que os outros esperam que sejam.

A liberdade começa aí:
no instante em que nos damos conta de que estamos presos.
No primeiro suspiro de quem percebe que não aguenta mais.
Naquela faísca que, mesmo no meio do cansaço, diz: “eu quero mais de mim”.

Falo-te disto porque sei o que é viver presa.
Durante muito tempo fiz escolhas com medo — medo de dececionar, de perder, de errar, de me sentir só.
Deixei-me levar por caminhos que pareciam seguros, que me faziam estremecer e não me faziam vibrar por dentro, porque é sempre mais fácil viver no conforto da previsibilidade (ou não).
Só mais tarde, já com metade da vida vivida, comecei a perceber que não há tempo a perder.

Hoje. Ah, hoje, sinto-me livre.
Não porque tenho tudo controlado, mas precisamente porque deixei de tentar controlar tudo.
Faço escolhas sentidas, mesmo sem garantias.
Entrego-me aos momentos com a alma inteira, porque quando sinto, faz sentido.
Não vivo agarrada às expectativas, mas sim ao presente.
Obviamente que não sou irresponsável — continuo a ter pés na terra — mas agora, finalmente, vivo com o coração ao alto.

E essa fidelidade a mim mesma, aos meus desejos mais profundos, é a minha forma de liberdade.
É a minha verdade.
E, talvez, seja esse o único caminho possível para viver inteira — mesmo que isso signifique, por vezes, começar de novo. E ancorar todas as expectativas que poderia ter numa pedra bem pesada e atira-la ao fundo do mar. O mar da esperança. Porque cada dia traz sempre inúmeras possibilidades. Cada encontro pode trazer algo mágico, e uma luz que se perpetua na eternidade e nos ilumina o caminho.

E a verdade, é que as memórias que comecei a construir neste caminho novo do futuro, são as mais bonitas, aquelas que me fazem arrepiar e perceber que há tanto, mas tanto que a vida nos pode dar!

Sabes, ninguém nos pode dar a liberdade.
Ela nasce dentro.
É um pacto íntimo, uma promessa silenciosa: a de não nos abandonarmos mais.

E tu?
Onde tens estado?
Tens-te escutado, ou apenas obedecido?
Tens vivido, ou apenas sobrevivido?

Talvez esteja na hora de te perguntares:
e se não fores livre?
O que é que estás à espera para seres?

Sabes, ninguém nos pode dar a liberdade.

Ela não se compra, não se mendiga, não se herda.
Ela conquista-se. Dentro.
Quando paramos de fugir de nós mesmos. 

Quando deixamos de estar presos aos dogmas, e aos pensamentos que nos pesam como fardos que carregamos, e nem nos damos conta.
Quando deixamos de pedir desculpa por existir.

Ser livre é um ato de coragem.
É dizer ao mundo: "eu escolho-me, mesmo que me custe, mesmo que me julguem, mesmo que me deixem."
É despir camadas. É sair da caverna. É olhar a vida nos olhos e dizer: "é agora."

E tu?
Onde estás?
Ainda a tentar encaixar num molde que já nem sabes de quem é?
Ainda a adiar o que te faz vibrar, por medo de perder o que te esvazia?

Talvez esteja na hora.
De fazer silêncio por dentro.
De escutar aquele sussurro que te chama há tanto tempo.
De parar de sobreviver… e começar, finalmente, a viver.

Porque se não fores livre, então o que és?


Com amor, FM

domingo, 2 de março de 2025

 Onde não puderes amar, não te demores.



Sentada num dos meus sítios preferidos do mundo, em plena conexão com o mar, e com a natureza, paro, respiro e sinto.

Estou despojada de tudo. O cheiro a maresia e uma brisa leve que me beija o rosto, adivinham os dias de primavera que estão para vir. O som que me acompanha não é nada se não o das ondas a bater no mar. Deixo os air pods no carro, e fico-me comigo.

Nesta língua de terra que o homem tenta controlar e demonstrar a sua força, a natureza demonstra a sua tenacidade, e é a prova de que nada nem ninguém consegue sobrepor-se à sua força, e àquilo que tem de ser. Assim é aqui, em Ofir, assim é a vida. Na prática, podemos fingir, podemos mascarar o que temos, o que sentimos, o que queremos, mas um dia, um dia qualquer, vem um tsunami que… leva tudo… puxa tudo para trás, deixando à superfície uma linda realidade de conchas, estrelas do mar, rochedos por descobrir, leves ondas de areia cavadas pela força da água, e até nos damos a contemplar coisas nunca antes vistas. E, de um momento para o outro, a mesma onda que deixou a descoberto coisas que tiveram um belo impacto em nós, vem com mais força para destruir tudo. E nós, queixamo-nos…

Nada, nem ninguém consegue forçar o que não é para ser. Porque a realidade, essa, surge sempre. Seja em pensamentos, em estranhos acasos ou coincidências, e a vida, encarrega-se sempre de colocar tudo no lugar certo, mesmo que em determinados momentos nos questionemos sobre o seu porquê.

No dia em que percebermos que a tónica está na pergunta que fazemos, talvez deixemos os porquês da vida, e passamos a mudar o foco para “o que é que eu posso fazer com isto?”. E assim que deixamos de questionar as inevitabilidades da vida, assumimos as diretrizes da nossa história, sendo os autores, e não as vítimas das circunstâncias (que somos nós mesmos que as criamos), dos momentos (que somos sós mesmos que os escolhemos), ou das justificações (que somos nós mesmos que as damos para o que não queremos que aconteça).

Assim é a vida, são a maior parte das pessoas, e das relações.

Quem me conhece sabe que sou na minha essência uma pessoa positiva, com uma energia forte, intensa, e que levo tudo à minha frente quando acredito. Detesto perdas de tempo. Não tenho paciência para pessoas que engoliram livros de auto-ajuda e passam a vida a dar aos outros pérolas de conhecimento, que ouviram ou leram algures, e no momento de estarem calados, porque não somos ninguém para julgar os outros, nem tecer comentários sobre vidas que desconhecemos na verdade os contornos. Sim, nós somos nós e as nossas circunstâncias, e quem viver de achismos, vai ter sempre alguma coisa a dizer.

Detesto julgamentos e aqueles que acham que têm sempre uma palavra a dizer.

E no mesmo local onde faço a reflexão acima, olho para o necessaire que uma das minhas pessoas favoritas me ofereceu (há cerca de 2 anos talvez? ) e dou por mim a olhar para a frase que está nele escrito: “Donde no puedes amar no te demores”.

Não, não foi acaso este presente, e talvez não seja acaso esta contemplação.

Sabes, há uma coisa que me custa entender: essa mania que tanta gente tem de ficar onde já não há nada. De segurar relações por conveniência, por medo do vazio ou só porque é mais fácil ficar do que ter a coragem de ir embora. Ficam ali, agarrados a uma rotina confortável, a um amor morno, sem sabor, sem pele, sem alma.
E pior ainda — ficam à espera de milagres. Como se um dia, do nada, fosse aparecer a faísca que apagaram há muito tempo atrás. Ficam à espera que o outro mude, que a história se reinvente, que a paixão renasça. Mas os milagres não acontecem onde já desistimos de acreditar.

Que estranha obsessão social esta em manter as aparências. Relacionamentos que já não são nada além de uma rotina confortável, cascas vazias onde o amor morreu há tanto tempo que já ninguém se lembra do sabor da paixão ou do calor de um abraço sincero.

Ainda assim, as pessoas teimam em ficar. Por conveniência, por medo da solidão, por receio do desconhecido. É mais fácil dividir uma casa com alguém que já se conhece do que aprender a construir um novo lar com quem ainda não chegou. É mais fácil deitar-se ao lado de quem já não desperta desejo do que enfrentar o silêncio de uma cama vazia. É mais fácil aceitar um amor morno do que arriscar perder tudo e acabar sem nada.

O medo vence.

Medo do que não chegou ainda. Dos passos que tem que se dar sozinhos. Das pessoas que tem de ficar para trás, inevitavelmente. Esquecendo-se que nunca há lugar para o novo, quando o velho ocupa todos os lugares do que está por vir.

E assim, permanecem. Prisioneiros de vidas mornas, de dias sem cor e noites sem alma. Ficam à espera de milagres que nunca acontecem, à espera que o outro mude, que o amor renasça, que a faísca perdida volte como quem acende uma vela num quarto escuro. Mas os milagres não acontecem em terrenos onde a alma já desistiu.

Onde não puderes amar, não te demores. 

Não te demores em casas onde a tua gargalhada é ruído. Não te demores em camas onde o teu corpo é peso morto. Não te demores em mesas onde já nem há palavras. Não te demores em braços que não te apertam e em olhares que não te procuram.  Não te demores em pessoas que não são colos, nem em sorrisos que não te iluminam. E, acima de tudo, não te demores em lugares onde só existem expectativas vãs e vazias. Onde o amor é prometido, mas nunca cumprido. Onde te dão metade, e até esperam que fiques grato. Onde te fazem acreditar que talvez, um dia, serás escolhida — mas esse dia nunca chegou, nem vai chegar.

Não fomos feitos para viver de migalhas, nem de amores adiados ou promessas por cumprir. Não somos metades à espera de completude. Somos pessoas inteiras, à espera de quem nos acrescente.

Porque a vida é demasiado curta para se gastar em becos sem saída. Porque mereces um amor que te arda na pele e não um que te apague aos poucos. Porque mereces alguém que escolha ficar todos os dias, não por comodismo, mas por desejo, por admiração, por amor genuíno.

E sim, devemos ter a coragem de partir. De esquecer quem não nos escolhe. De abandonar quem nos deixa sempre para depois. Porque merecemos mais do que o quase, o talvez ou o “quem sabe um dia”.

Onde não puderes amar e ser amado, não te demores — porque demorar-te é trair-te. E a pior traição é aquela que cometes contra ti mesmo.

Viremos a mesa ao contrário. Sejamos capazes de nos afirmar, de não aceitar menos do que merecemos!

Sim, porque quem quer, arranja motivos. Quem não quer, arranja desculpas. 

Por isso, sim. Tem a coragem de partir. De esquecer quem não te escolhe todos os dias. Quem só sabe dizer “agora não”, “um dia talvez”, “preciso de tempo”.
E nós? Nós não temos tempo para desculpas. Nem para amores a meio gás.

Chega de aceitar migalhas como se fossem banquetes.
Quem quer, aparece. Quem quer, cuida. Quem quer, faz acontecer.
E quem não quer… que fique para trás. Sem culpa. Sem saudade. E sem sequer olharmos para trás.

Com amor, FM


segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

 

Honrar com alegria a nossa vida!




Algo aparentemente simples, como que um mantra que bebemos desta realidade, e bonito na sua essência, mas que traz em si a certeza de carregarmos tudo o que a vida nos traz. Bom, e menos bom. Inspirador, e ao mesmo tempo o que sombreia a nossa existência porque significa aceitar tudo o que vem, e com isto assumir os nossos medos, as nossas limitações, neste limbo somos convidados a desistir das nossas certezas.

A vida é um presente. Todos os dias, ao abrirmos os olhos, somos convidados a participar no milagre diário das milhares possibilidades e escolhas. Podemos viver amarrados a um passado que já foi, e a um futuro que não existe. Ser presente é reconhecer que o único momento que existe é o agora.

Neste instante, sabemos que capacidade de viver encena em si mesma a possibilidade de agradecer, de sonhar, de ser, de abrir o coração a toda a realidade. E aqui a magia acontece, sempre que amanhece.

Honrar a nossa vida não é apenas cumprir os papéis que a sociedade nos atribui. É algo mais profundo. É reconhecer a singularidade do nosso caminho, valorizar as pequenas vitórias, aprender com as quedas e, acima de tudo, agradecer. Quando honramos a nossa existência, tornamo-nos mais conscientes de que o tempo é o bem mais precioso que temos, e isso nos inspira a vivê-lo de forma plena.

Honrar com alegria significa permitirmo-nos a rir mais, a dançar sem motivo, a abraçar quem amamos, a saborear cada refeição como um banquete e transformar os dias mais comuns em memórias extraordinárias. É encontrar, nos gestos mais simples, a essência da felicidade. Elogiar, sorrir, partilhar, amar muito,  são para mim os ingredientes certos para a receita mágica da vida.

Não precisamos esperar pela viagem dos sonhos, pelo sucesso profissional, pelo companheiro certo, ou pelo momento “perfeito”. A alegria está aqui e agora. Está no cheiro do café pela manhã, na brisa que toca o rosto, no som de uma gargalhada inesperada. Está em cada batida do nosso coração que nos lembra que estamos vivos, ainda capazes de recomeçar e fazer diferente.

E, quando celebramos a vida dessa forma, algo mágico acontece: inspiramos os outros. Ao irradiar alegria, damos permissão para que aqueles à nossa volta façam o mesmo. Juntos, criamos um círculo virtuoso onde a felicidade se multiplica e a vida é celebrada em sua plenitude.

Hoje, escolho honrar a minha vida com alegria. Escolho agradecer por tudo o que tenho e que construi. Por todas as pessoas que me acompanham. Escolho transformar os desafios com que me deparo em aprendizagens. Escolho transformar os momentos simples em instantes preciosos e as conexões humanas em tesouros que me acompanham. Escolho sentir com o coração, porque nele está a verdade: e escolho que neste lugar bonito seja a casa dos meus pensamentos. Escolho saber esperar pelo que a vida tem para me trazer, e faço o que está ao meu alcance para acima de tudo VIVER.

Tudo, desde o inicio, está destinado a dar certo. Tudo o que precisamos de fazer é confiar, sacudir toda a insegurança, a impaciência e todo o medo. Acalmar o coração é também uma forma de honrar a vida e o momento presente. Nem tudo precisa de acontecer agora. Nem tudo tem que acontecer hoje. A serenidade de aceitar o ritmo da vida, com a certeza que é que é nosso, chegará no tempo certo, é libertadora. Deixar o passado e o futuro de lado, significa acabar com a ansiedade, e abrir espaço para viver o momento presente com plenitude.

 

E tu? Como vais honrar a tua vida hoje?

Acalma-te e sabe esperar pelo momento certo, que surgirá naturalmente.

 

Que eu tenha a serenidade para aceitar tudo aquilo que não pode ser mudado, a força para mudar tudo o que deve ser mudado, e acima de tudo, tenha sabedoria para distinguir uma coisa da outra.”